jonas oliver
artista brasileiro na moda internacional

Era uma tarde de primavera, sexta-feira, em Londres, quando encontrei pela primeira vez o elegante Jonas Oliver, próximo à estação de Oxford Circus, como combinado. De lá, fomos caminhando até um café, próximo à loja Liberty, local de escolha do meu entrevistado do dia. No andar de baixo do café, encontramos o clima perfeito para um bate papo. Tomamos assento numa mesa para três. E ao sabor de muffins e mocha, gravamos a entrevista que você confere logo abaixo.

Jonas Oliver

Jonas Oliver

Morando há quase duas décadas fora do Brasil, o make up artist Oliver, que atualmente também assina a direção de moda na Bond Magazine (Inglaterra) e Pacha (Espanha), adiantou tudo sobre o lançamento do seu primeiro livro de maquiagem, “Colors”, que promete dar o que falar no mercado fashion inglês.

Ele abriu o coração latino, relembrando desde a partida do Brasil e os amigos que por lá deixou (entre eles nomes famosos como Monique Evans e Carlos Casagrande), até o sucesso atual no mercado de moda internacional. Jonas também analisa a relação dos brasileiros com a beleza; destaca a importância da modelo e empresária Gisele Bündchen e reclama, ainda, da falta de reconhecimento da imprensa com as supermodels do país.

Confira a entrevista completa com o make up artist e diretor de moda Jonas Oliver:

Foto: Phoenix Magazine

Foto: Phoenix Magazine

Lívia Rangel – Me fala um pouco sobre o início da sua trajetória, onde tudo começou…

Jonas Oliver – Eu sou do Rio de Janeiro, mas fui, aos 18 anos, morar em Mato Grosso onde comecei a trabalhar num programa de televisão do SBT como maquiador e apresentei um programa de moda. Depois de um tempo lá, então, eu decidi ‘velejar’ um pouco, eu já tinha feito muita coisa, já estava maquiando o Concurso Miss Brasil, minha família já trabalhava na área, com maquiagem e tal, e eu resolvi dar continuidade a essa arte.

Lívia – E o que te fez querer sair do Brasil?

Oliver – O que me fez querer sair do Brasil foi a necessidade de crescer profissionalmente. Porque não era dinheiro, nem nada, era uma vontade de me qualificar mais. No Brasil, chega uma hora que as pessoas começam a perguntar: ‘o que você vai fazer agora?’. Minha avó falava: ‘você quer ser maquiador, mas o que você vai ser de verdade?’. Pra ela, maquiador não era profissão, profissão é advogado, médico etc. E eu falava: ‘mas a gente pode ser maquiador’. Eu via a maquiagem além da maquiagem.

Lívia – Como foi a partida para ir morar em Paris?

Oliver – Eu fui para Paris há 18 anos, porque eu tinha amigos lá e a família do meu pai também mora lá. Na época, eles me incentivaram a ir pra lá, mas eu ainda ficava naquela dúvida: ‘e se eu for e nada acontecer e eu deixar todos meus contatos profissionais do Brasil?’. Mas aí eu pensei, nessa vida a gente ganha aqui e perde ali, se der errado, levanta sacode a poeira e dá a volta por cima (risos).

Eu estava numa fase boa de trabalho no Brasil, mas decidi ir assim mesmo, até porque se nada desse certo eu tinha tudo no Brasil. E aí criei coragem pra largar tudo, larguei o trabalho, fechei meu apartamento chiquérrimo (risos), dividi as coisas de arte que eu tinha entre amigos, pra resguardá-las e fui em busca de cultura… A gente nunca é velho demais pra aprender.

Lívia – Passados quase 20 anos fora, como é a sua relação com o seu país?

Oliver – A minha relação com o Brasil é um pouco limitada, aconteceu o que eu previa, acabei perdendo meus contatos lá…

Lívia – Ainda mantém contato com os amigos do Brasil?

Oliver – Meus amigos eram o Carlos Casagrande, que era modelo na época, mas não sei se ele continua trabalhando como modelo. Era a Monique Evans, uma amiga querida, que eu não sei o que está fazendo agora, o telefone que eu tenho dela não é mais o mesmo, ela mudou de número e tal. Tem o Rafael Calomeni (ator e modelo). Tenho muitos amigos lá, mas eu, sinceramente, não sei o que eles andam fazendo, quando a gente se fala é rápido e por email. Vinícius Manne (ex-modelo e ator) era outro querido, acho que casou agora e está dando aulas de teatro, mas são pessoas que eu perdi o contato.

E isso até me amedronta um pouco, por eu devo ir ao Brasil ano que vem pra lançar meu livro de maquiagem. Quero mostrar não só o que tenho feito nas grandes revistas, mas todo esse aprendizado ao longo dos últimos anos.

“Devo ir ao Brasil ano que vem pra lançar
meu livro de maquiagem, ‘Colors'”

Lívia – Qual o título escolhido para o seu livro?

Oliver – O livro se chama “Colors” by Oliver e deve ser lançado primeiro em inglês, na Europa, em novembro ou dezembro de 2015. É uma colaboração de 25 fotógrafos ingleses, produtores e stylists e eles resolveram mostrar meu trabalho. Então, “Colors” mostra o que anda acontecendo no circuito de moda inglês e eu fui o maquiador escolhido – sou eu quem maqueia todos os modelos, das maiores agências da Inglaterra.

colors

Lívia – Qual a ideia central por trás das páginas de “Colors”?

Oliver – O livro mostra a ideia de cores, o que tentar, o que não tentar. Não é um livro que vai ensinar passo-a-passo de como maquiar, mas é um trabalho que ajuda a ter inspiração, a pensar “isso é possível”. Tem muita coisa que as pessoas não têm noção e que pode ser feita. Então, a gente mostra isso.

Lívia – Quando o público brasileiro poderá conhecer esse trabalho?

Oliver – O livro vai ser lançado na Europa primeiro, no final desse ano. Eu quero ir no Brasil antes, contratar uma boa assessoria de imprensa, porque me falaram que o Brasil é tão difícil fazer esse tipo de lançamento…

“Tem muita coisa que as pessoas não têm noção e que pode
ser feita com maquiagem. Então, a gente mostra isso”

Lívia – Há quanto tempo você não vai ao Brasil?

Oliver – Desde que vim, há 18 anos, nunca mais voltei. Fico muito na ponte aérea Nova York-Paris-Londres. Moro em Londres, atualmente, mas minha casa é em Paris. Meu pai, o Jean Pierre, é francês. Minha mãe, Maria da Glória, casou de novo e mora numa fazenda no Mato Grosso.

Lívia – Além da maquiagem de beleza, você é uma artista que trabalha com efeitos especiais…

Oliver – Hoje eu trabalho com special effects, mas antes eu ficava observando como as pessoas conseguiam chegar naquele determinado tom de cor, como faziam pra deixar a pele tão natural ao real, quais produtos usar e como misturar… eram muitas perguntas sem respostas.

Os efeitos especiais surgiram pra não ficar entediado fazendo só beleza. Eu sou ariano, incansável (risos). Se eu voltar a trabalhar no Brasil, por exemplo, e isso pode acontecer, isso (maquiagem de efeitos especiais) é uma coisa que ajuda, por que eu posso fazer cinema, além de beauty. Eu já fiz muitos short films aqui. É aquela coisa, tem uma frase grega que diz algo assim: “se a oportunidade aparecer faça, porque depois pode acabar”. Mas agora eu estou num estágio profissional onde eu escolho o que eu faço, acho que é momento bom quando você começa a escolher o que quer fazer.

Lívia – Fazendo uma rápida retrospectiva, quais trabalhos você destacaria em sua carreira?

Oliver – Sempre que eu me lembro dos meus trabalhos tem um que eu gosto bastante, que foi inspirado na Maria Antonieta, a rainha da frança que foi degolada. Foi um trabalho bem minucioso, a modelo era maravilhosa, o lugar que a gente fotografou era divino, os vestidos vieram da Rússia, vestidos de princesa, de rainha mesmo. Todas as vezes que eu olho as fotos me dá um arrepio, uma satisfação em ter feito aquilo.

Mas também já trabalhei com muita gente importante também, como os atores Jude Law e Tom Felton (Draco Malfoy de Harry Porter) – ele é maravilhoso; trabalhei com um dos modelos mais importantes do mundo hoje, o David Gandy; o Tony Wards, que foi um dos primeiros supermodels do mundo e continua aos 50 anos na moda – ele namorou a Madonna, vivia batendo nela mas hoje ele é um senhor gentleman (risos). Eu trabalhei com muita gente boa. Teve a Ana Hickmann também aqui, vestida de Amy Winehouse.

Lívia – No mês passado, a Gisele Bündchen disse adeus às passarelas. Na sua opinião, qual a maior importância da brasileira para a moda internacional?

Oliver – Eu acho que a importância da Gisele para o mercado de moda internacional absolutamente maravilhosa e grandiosa, é uma pena que o brasileiro não veja a Gisele como o mercado internacional a vê. Eu acho que a informação do que é a beleza no Brasil é muito diferente do que é aqui na Europa. Então, as mulheres mais bonitas do Brasil são mais reconhecidas aqui. A Victória Secret tem umas 5 ou 7 supermodels brasileiras e muita gente lá não sabe quem elas são.

“(…) é uma pena que o brasileiro não veja a
Gisele como o mercado internacional a vê”

A imprensa brasileira também… outro dia eu estava assistindo a um programa de TV brasileiro, era ‘Pânico’ eu acho, e eu fiquei chocado, as mulheres eram gigantescas, fiquei chocado de tão grandes que elas eram. Essa coisa de que brasileiro gosta de bunda e de peito, e a falta de informação, deixou o brasileiro muito longe do que é a beleza.

E, então, a Gisele representou muito bem a beleza da mulher brasileira de uma forma diferente. Muita gente fala que ela é magra. Tá, ela é magra, mas tem um peito gigante e é natural (risos). E a personalidade dela sempre foi muito autêntica, muita brasileira, até no sotaque, você reconhece que é a Gisele falando de longe. Nos EUA eles brincam dizendo que ela aprendeu a falar inglês na tribo (risos). Ela mistura português com inglês. E eu não acho isso feio, acho original, são pessoas que continuam guardando o país dentro de si.

“A informação do que é a beleza no Brasil
é muito diferente do que é aqui na Europa”

Lívia – O Brasil te inspira na hora de maquiar?

Oliver – Eu gostaria de ser mais assim, meio Gisele (risos). Nos dias de hoje eu me sinto tão “boring“ em relação ao que tem sido feito no Brasil, em relação às cores. E olha que eu sou muito extravagante (risos), mas a minha extravagância hoje é muito mais “clean”. Às vezes, eu preciso fazer uma coisa mais assim (exagerada)… aí eu deixo o brasileiro voltar. Eu queria ter mais contato com o Brasil pra aproveitar mais esse lado.

Lívia – Qual a previsão para o lançamento em português de “Colours”? Já tem uma editora interessada no livro?

Oliver – Não, nós vamos fazer uma articulação grande e uma festa de lançamento aqui, mas, no Brasil, por enquanto, ainda não tenho nada. A ideia é fazer uma exposição também com as fotos maravilhosas do livro. Eu estou muito empolgado fazendo esse livro. :)

por Lívia Rangel

Galeria de fotos com trabalhos assinados por Jonas Oliver: 

Lívia Rangel é jornalista cultural. Editora-fundadora da revista eletrônica www.ElevenCulture.com, publica, às terças e quintas-feiras, aqui no Acontece. Nas horas vagas, escreve poemas, produz festas e ataca de DJ em Londres. E-mail: lira.comunicacao@gmail.com

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Victor Valenzuela

Olá, gotaria do contato do Jonas, onde encontro?

Silvino Ferreira Jr Ferreira Jr

Olá Victor, este é o site do Jonas: http://jonasoliver.com. Se você não conseguir uma resposta por lá, nos avise, via formulário de contato, que entramos em contato direto com ele e pedimos autorização pra te passar o telefone. Abs, Silvino

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